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domingo, 4 de março de 2012

Brega Universitário

BREGA "UNIVERSITÁRIO": CULTURA E EDUCAÇÃO EM CRISE
Uma boa crônica e Alexandre Figueiredo para quem gosta de ler.
Alexandre Figueiredo
... A chamada música de "sucesso" no Brasil, a música brega-popularesca que simula elementos da cultura brasileira dentro da perspectiva do padrão 'hit-parade' dos EUA, recentemente tem feito vários apelos midiáticos para permanecer na hegemonia do mercado brasileiro, sem medir escrúpulos de tentar ofuscar até mesmo a verdadeira cultura brasileira. (...) (...)Junto ao "sertanejo universitário", vem então os outros ritmos "universitários". Simultaneamente, veio o "pagode universitário", de grupos como Sorriso Maroto e Jeito Moleque, se juntando ao filão aos "sertanejos" Vítor & Léo, João Bosco & Vinícius e César Menotti & Fabiano, entre muitos outros. Há também o "forró universitário", não aquele feito por grupos como Falamansa, que não faziam parte do universo popularesco - como os sambistas do Batifun, um deles filho até de sambista tradicional - , mas o derivado do "forró-brega". Já se fala que nomes como Caviar Com Rapadura, Aviões do Forró ou mesmo a jovem Stephany (que fez uma versão da música de Vanessa Carlton, pondo letra falando sobre um carro da Volkswagen, Cross Fox) representam o "forró universitário".
Mas, para quem não viu a bola de neve crescer, o próprio rótulo "brega universitário" propriamente dito já foi lançado, através do cantor Dário Jeans, claramente influenciado pelo brega mais explícito dos anos 70, sobretudo de Odair José a Sérgio Mallandro. E já se fala em tentar jogar os ritmos bregas regionais, como o arrocha da Bahia, a tchê-music do Rio Grande do Sul e o tecno-brega do Norte brasileiro para os cenários "universitários", para atrair a freguesia jovem mais abastada.
E por que essa denominação de "universitário"? Mudaram-se os tempos ou mudaram-se as coisas? Na verdade, o que mudou foi uma estratégia mercadológica da música brega-popularesca, que iniciou, desde os anos 60, sua escalada de crescimento e diversificação de seus "produtos" - as tendências rítmicas e estilísticas derivadas - , sob forma de transformar a música cafona em algo diversificado e durável, consistindo numa "música popular" feita conforme os interesses dos detentores do poder econômico no país.
A música brega, em toda sua trajetória, expressou sua finalidade de dominar o território brasileiro. Começou nas regiões mais pobres do interior do país, quando o latifúndio determinou que lugar do povo é nos bordéis, nos botecos e no subemprego, vendendo produtos contrabandeados ou piratas. Depois, dos núcleos mais pobres procurou atingir todas as cidades do interior, mesmo nos seus núcleos mais urbanos. Em seguida, alcançou as capitais e grandes cidades do interior e de regiões socialmente mais atrasadas, como Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Dos anos 80 para cá, a música brega, já fragmentada em várias tendências e estilos, que tendenciosamente imitam, em parte, os ritmos regionais brasileiros, atingiu todos os núcleos rurais e suburbanos do país, no esforço de atingir também o Sul do país. E, dos anos 90 para cá, sua hegemonia tornou-se absoluta nas classes populares, representando um triunfo ao empresariado do entretenimento e aos donos da grande mídia, que praticamente têm a influência do brega-popularesco sobre o povo bem maior do que até mesmo os antigos ritmos folclóricos, hoje condenados a virar artigos de museu.
Agora, então, a manobra dos barões do entretenimento acaba sendo o rótulo "universitário", como uma denominação mercadológica feita para conquistar o público jovem de classe média, algo que os burocratas das pesquisas estatísticas definem como classes B e C, entre 18 e 30 anos. A denominação "universitário" tem também o objetivo de desmobilizar o antigo reduto de jovens rebeldes que transformaram o quadro sócio-político de nosso país.

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